Palpitações, tremores, aumento da transpiração, intolerância ao calor, ansiedade e perda de peso podem ocorrer no hipertireoidismo. Entretanto, nenhum desses sintomas, isoladamente, confirma o diagnóstico.
As manifestações variam entre as pessoas e também podem estar presentes em outras condições. Por isso, o diagnóstico depende da associação entre história clínica, exame físico e exames laboratoriais adequadamente interpretados.
O que é hipertireoidismo?
O hipertireoidismo ocorre quando a glândula tireoide produz hormônios tireoidianos em excesso.
Localizada na região anterior do pescoço, a tireoide produz principalmente os hormônios T4, ou tiroxina, e T3, ou triiodotironina. Esses hormônios participam da regulação do consumo de energia e influenciam o funcionamento do coração, do sistema nervoso, dos músculos, do intestino e de outros órgãos.
Quando há produção excessiva, diferentes funções do organismo podem ficar aceleradas. A intensidade desse efeito, porém, varia conforme a causa, a duração da alteração, a idade e as condições clínicas de cada pessoa.
Hipertireoidismo e tireotoxicose são a mesma coisa?
Os termos estão relacionados, mas não são exatamente sinônimos.
Tireotoxicose é o estado clínico decorrente da exposição do organismo a uma quantidade excessiva de hormônios tireoidianos, independentemente da origem desse excesso.
Hipertireoidismo ocorre especificamente quando a própria tireoide está produzindo hormônios em excesso. Portanto, o hipertireoidismo é uma causa de tireotoxicose.
Essa distinção é importante. Em determinadas tireoidites, por exemplo, pode ocorrer liberação temporária de hormônios que já estavam armazenados na glândula, sem aumento da produção hormonal. Por isso, o tratamento desses casos não é necessariamente igual ao utilizado quando a tireoide está produzindo novos hormônios excessivamente.
A distinção entre os dois conceitos é abordada nas diretrizes da American Thyroid Association sobre hipertireoidismo e outras causas de tireotoxicose e em uma revisão clínica publicada no The Lancet.
Quais são os sintomas do hipertireoidismo?
Sintomas mais frequentes
O excesso de hormônios tireoidianos pode produzir manifestações em diferentes sistemas do organismo.
Entre os sintomas e sinais possíveis estão:
- palpitações ou aceleração dos batimentos cardíacos;
- alterações do ritmo cardíaco;
- tremores nas mãos;
- aumento da transpiração;
- intolerância ao calor;
- nervosismo, irritabilidade ou ansiedade;
- dificuldade para dormir;
- perda de peso, mesmo com apetite preservado ou aumentado;
- fraqueza muscular;
- cansaço;
- evacuações mais frequentes ou diarreia;
- queda de cabelo;
- alterações menstruais;
- aumento do volume da tireoide;
- desconforto ou sensação de pressão no pescoço.
Como os sintomas podem variar?
As manifestações podem começar gradualmente ou aparecer mais rapidamente. Além disso, nem todas as pessoas apresentam o mesmo conjunto de sintomas.
O hipertireoidismo pode se manifestar de maneira diferente em pessoas mais velhas?
Em pessoas mais velhas, o quadro pode ser menos típico, com manifestações como cansaço, perda de peso, fraqueza e alterações cardíacas, sem a mesma intensidade de tremores ou agitação observada em alguns pacientes mais jovens.
A American Thyroid Association, a Endocrine Society e o Departamento de Tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia apresentam informações sobre as possíveis manifestações do hipertireoidismo.
Alterações nos olhos significam hipertireoidismo?
Não necessariamente.
Irritação, vermelhidão, sensação de pressão atrás dos olhos, retração das pálpebras, visão dupla ou protrusão ocular podem ocorrer na doença ocular da tireoide, mais frequentemente associada à doença de Graves.
Entretanto, essas manifestações não estão presentes em todas as pessoas com doença de Graves e não caracterizam todas as causas de hipertireoidismo. Além disso, alterações oculares também podem ter outras origens e precisam ser avaliadas de maneira específica.
Ansiedade, tremores ou perda de peso confirmam o diagnóstico?
Não.
Ansiedade, palpitações, tremores, insônia, transpiração excessiva e perda de peso podem ocorrer no hipertireoidismo, mas não são exclusivos dessa condição.
Esses sintomas também podem estar relacionados, entre outras possibilidades, a:
- transtornos de ansiedade;
- alterações do ritmo cardíaco;
- uso de medicamentos ou substâncias estimulantes;
- mudanças hormonais;
- infecções e outras doenças sistêmicas;
- alterações gastrointestinais;
- perda de peso por outras causas.
Da mesma maneira, uma pessoa pode apresentar hipertireoidismo com poucos sintomas. Portanto, tanto a presença quanto a ausência das manifestações mais conhecidas precisam ser interpretadas no contexto clínico.
Como é feito o diagnóstico do hipertireoidismo?
A investigação costuma começar com a dosagem de TSH e T4 livre e, conforme o quadro, também pode incluir o T3.
O que significa cada exame?
TSH: hormônio produzido pela hipófise que participa da regulação da atividade da tireoide.
T4 livre: representa a fração livre da tiroxina disponível para atuar nos tecidos.
T3: pode ser solicitado conforme o quadro clínico, inclusive quando existe suspeita de hipertireoidismo e o T4 livre ainda não está elevado.
Qual é o padrão dos exames no hipertireoidismo manifesto?
No hipertireoidismo manifesto, o padrão laboratorial mais frequente é:
- TSH reduzido;
- T4 livre e/ou T3 elevados.
Por que os exames não devem ser interpretados isoladamente?
Entretanto, nenhum resultado deve ser interpretado isoladamente ou de maneira automática. A análise também considera a história clínica, o exame físico, os medicamentos e suplementos em uso e situações como gestação, doença aguda e possíveis interferências laboratoriais.
A American Thyroid Association explica a interpretação dos testes de função tireoidiana e a importância da análise conjunta dos resultados.
Um resultado alterado identifica a causa?
Não. Confirmar a tireotoxicose é apenas uma etapa da investigação. Depois disso, é necessário identificar por que o excesso de hormônios tireoidianos ocorreu.
Quais são as principais causas de hipertireoidismo?
Entre as causas de hipertireoidismo estão:
- doença de Graves: condição autoimune na qual anticorpos estimulam a tireoide;
- nódulo tóxico: nódulo que produz hormônios de maneira autônoma;
- bócio multinodular tóxico: presença de múltiplos nódulos com produção hormonal autônoma.
Por outro lado, outras situações podem causar tireotoxicose sem representar aumento persistente da produção hormonal, como determinadas tireoidites e o uso excessivo de hormônio tireoidiano.
Quais exames ajudam a identificar a causa?
Dependendo da história clínica e dos resultados iniciais, a investigação da causa pode incluir:
- dosagem de anticorpos contra o receptor de TSH, como TRAb ou TSI;
- exames de imagem;
- avaliação da captação de iodo pela tireoide;
- ultrassonografia em situações selecionadas.
Entretanto, nenhum exame complementar é indicado automaticamente para todas as pessoas. A escolha depende da hipótese diagnóstica e do contexto clínico.
As diretrizes da European Thyroid Association para doença de Graves descrevem o papel dos anticorpos e dos exames de imagem na investigação dessa causa específica.
Como é tratado o hipertireoidismo?
O tratamento depende da causa, da intensidade da alteração hormonal, da idade, da presença de outras doenças, da gestação, das características da tireoide e das condições clínicas de cada pessoa.
Conforme a causa, o tratamento pode envolver:
- controle dos sintomas;
- medicamentos antitireoidianos;
- radioiodoterapia;
- cirurgia.
Essas opções não são equivalentes para todas as causas. Os medicamentos antitireoidianos, por exemplo, reduzem a produção de novos hormônios e não atuam da mesma maneira em uma tireotoxicose provocada pela liberação temporária de hormônios durante uma tireoidite.
Portanto, não existe uma única opção adequada para todas as pessoas. A definição da abordagem considera benefícios, riscos, contraindicações e características individuais.
O que pode acontecer quando o hipertireoidismo não é tratado?
O hipertireoidismo persistente pode estar associado a complicações, especialmente cardiovasculares e ósseas.
Entre elas estão alterações do ritmo cardíaco, agravamento de doenças cardiovasculares e perda de massa óssea. O risco depende da intensidade e da duração do excesso hormonal, além das características clínicas individuais.
Entretanto, isso não significa que toda pessoa com sintomas apresentará complicações. Significa que uma alteração confirmada precisa ser adequadamente avaliada.
Quando procurar avaliação médica?
Uma avaliação pode ser importante quando manifestações como palpitações, tremores, intolerância ao calor, fraqueza muscular ou perda de peso sem explicação são persistentes ou aparecem em conjunto.
Além disso, quando os sintomas persistem, especialmente se associados à perda de peso sem explicação ou a alterações no pescoço ou nos olhos, a avaliação médica pode indicar se há necessidade de investigação.
Por outro lado, alterações no ritmo cardíaco, falta de ar, dor no peito, desmaio, febre associada à piora clínica intensa ou alteração importante do estado mental exigem avaliação médica imediata.
O que você precisa lembrar?
Os sintomas do hipertireoidismo são variáveis e, isoladamente, não confirmam o diagnóstico.
Por isso, a avaliação combina história clínica, exame físico e testes de função tireoidiana. Depois de confirmar a tireotoxicose, é necessário investigar sua causa, pois diferentes condições exigem abordagens específicas.
Por fim, o tratamento deve ser definido de acordo com a causa e com as características clínicas de cada pessoa.
Perguntas frequentes sobre hipertireoidismo
Quem tem hipertireoidismo sempre emagrece?
Não. A perda de peso pode ocorrer, mas nem todas as pessoas apresentam esse sintoma. A manifestação clínica varia conforme a intensidade e a duração da alteração hormonal, a idade e outras condições individuais.
TSH baixo confirma hipertireoidismo?
Não isoladamente. O TSH precisa ser analisado em conjunto com o T4 livre, o T3 quando indicado e o contexto clínico. Além disso, existem situações em que o TSH pode estar reduzido sem hipertireoidismo manifesto.
Ansiedade pode ser causada pela tireoide?
Ansiedade, irritabilidade e nervosismo podem ocorrer no hipertireoidismo, mas também possuem diversas outras causas. Portanto, a presença desses sintomas, isoladamente, não permite estabelecer o diagnóstico.
Toda pessoa com hipertireoidismo precisa de cirurgia?
Não. Conforme a causa e as características individuais, o tratamento pode envolver controle dos sintomas, medicamentos antitireoidianos, radioiodoterapia ou cirurgia.
Tireoidite é a mesma coisa que hipertireoidismo?
Não necessariamente. Algumas tireoidites podem causar tireotoxicose pela liberação de hormônios armazenados, sem aumento da produção hormonal pela tireoide.
Referências
- American Thyroid Association. Hyperthyroidism.
- American Thyroid Association. Thyroid Function Tests.
- Ross DS et al. 2016 American Thyroid Association Guidelines for Diagnosis and Management of Hyperthyroidism and Other Causes of Thyrotoxicosis.
- Kahaly GJ et al. 2018 European Thyroid Association Guideline for the Management of Graves’ Hyperthyroidism.
- De Leo S, Lee SY, Braverman LE. Hyperthyroidism. The Lancet, 2016.
- Endocrine Society. Hyperthyroidism.
- Departamento de Tireoide da SBEM. Hipertireoidismo: sintomas.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação médica individualizada.
Dra. Lilian Kanda
Mestre em Diabetes e Diabetes Gestacional pela Escola Paulista de Medicina – UNIFESP, formada pela Universidade Estadual de Londrina, possui Título de Especialista pela SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e passagem pela Universidade de Kanazawa. Buscando constante atualização, há 10 anos é membro da ADA - American Diabetes Association onde anualmente participa da ADA Scientific Sessions além de diversos outros congressos nacionais e internacionais. Atendimento bilingue Português-Japonês.
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Dra. Lilian Kanda
Mestre em Diabetes e Diabetes Gestacional pela Escola Paulista de Medicina – UNIFESP, formada pela Universidade Estadual de Londrina, possui Título de Especialista pela SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e passagem pela Universidade de Kanazawa. Membro do American Diabetes Association.